
A série “Adolescência”, da Netflix, fez bombar as pesquisas no Google por termos relacionados a “incel”. O Brasil é o 20º país com maior interesse de buscas pelo assunto e o pico do índice neste mês supera marcos anteriores em quase três vezes.
Levantamento da Sala Digital, parceria da Band com o Google, aponta que os principais termos buscados sobre “incel” nos últimos 15 dias trazem as palavras “significado”, “cultura” e “comunidade”. Assim também são as perguntas feitas na plataforma, que questionam a diferença entre “incel” e “red pill”.
Para tirar essas dúvidas, conversamos com a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, pesquisadora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).
O que é incel?
“O termo ‘incel’ é uma junção de duas palavras: celibatário involuntário. Ou seja, aquela pessoa que não tem encontros sexuais ou amorosos, não porque não deseja, mas porque algo a impede. No geral, esse termo descreve homens heterossexuais, que estão bastante infelizes, frustrados com a falta de oportunidade de ter uma experiência romântica ou um encontro sexual e assumem a postura de culpabilizar as mulheres e a sociedade por essa falta desse sucesso no caráter relacional ou sexual.”
O que é incel nas redes sociais?
“Nas redes sociais, ‘incel’ pode ser usado de modo pejorativo. Muitos grupos de adolescentes usam o termo para descrever alguém que tem um comportamento misógino. O termo é usado como uma crítica do sujeito que participa ativamente da cultura incel ou é referenciado dessa forma pelas mulheres como reflexo das suas atitudes.”
Cultura incel, o que é?
“A cultura incel é parte de uma cultura da internet, que forma comunidades em torno de uma ideologia com aspectos bem semelhantes. Essa cultura hierarquiza a sociedade a partir da aparência – ou seja, mulheres com melhor aparência estariam definindo melhor os seus pares sexuais e o seu lugar na sociedade. A conquista é baseada em como o feminino passa a escolher o seu par sexual. Há uma crença de que a potência sexual da mulher, portanto, é muito maior do que a dos homens e que elas passaram a ser muito mais seletivas sexualmente por usar do privilégio que elas têm com base na sua aparência.
É um pensamento extremamente avesso ao feminismo, inclusive com falas de que o feminismo foi muito ruim para a sociedade. A cultura incel entende que o feminismo encorajou as mulheres a ter um direito sexual igualitário, o que seria ruim, além de ter desfeito valores antigos e o papel do homem como alguém que organiza melhor a sociedade. O discurso vai ganhando um radicalismo e se posiciona de forma a adotar posturas mais coercitivas ou violentas para recuperar a regra patriarcal.
A oposição pela equidade de gênero é justificada pelo temor de uma grande crise social, quando na verdade, denota uma grande crise na masculinidade. A pauta feminista, porém, não é responsável por colocar alguns homens que se identificam com a cultura incel em uma posição de inferioridade ou dificuldade de se relacionar. Essa dificuldade vem aumentando, inclusive pós-pandemia, com as redes sociais e a hiperconectividade, em que a sociedade vive uma degradação na habilidade social presencial.
Essa crise na masculinidade se deu na forma como homens foram exigidos pela sociedade a ter um bom desempenho sexual, a prover, a não chorar, a demonstrar força, se comparar com outros homens. O homem é colocado em uma posição de definir o que é ser homem. E se o homem não pode mais desempenhar nessa condição que lhe foi apresentada, há uma crise sobre seu papel, uma perda de controle que, somada a essa falta do desejo, cria uma cultura reativa às mudanças na sociedade."
Comunidade incel, o que é?
"A comunidade incel é um grupo misógino que vai pregar um despertar do homem para a suposta manipulação feminina, então o despertar do homem para reagir a essa equidade de gênero e portanto, ele tem a fantasia de que ele estaria retomando uma sociedade com o homem no controle, portanto com uma segurança maior pra ele se posicionar e ter os ganhos que o homem que ele acha que o homem tinha no passado.
Essas comunidades se reúnem em grupos, fóruns, espaços online ou presenciais, mas predominantemente virtuais, em que se detecta a persistência, a troca, a forma de agir nesse discurso misógino, muitas vezes violento, com muitos comentários machistas. Essa rede muitas vezes coloca alguns homens como especialistas na área da sedução, alguns muito ativistas no direito masculino, usando terminologias como ‘machos alfa’, como homens que precisam lutar para retomar uma sociedade pautada no masculino.
As comunidades atraem esses homens jovens em busca de um significado. Isso preocupa porque esses jovens buscam um senso de pertencimento, um acolhimento para suas questões e angústias.
Uma angústia necessária que todo jovem passa é aprender a se colocar perante as meninas. A adolescência por si só traz bastante angústia, é uma fase de muitas mudanças e de estabelecer uma visão sobre você mesmo. E começam as comparações com aspectos que vão te identificarem em um mundo em que a rede social parece ser o ideal, de como eu tenho que me ver, como eu tenho que me portar.
Esse universo traz uma angústia e uma infelicidade pelo fracasso em conseguir relações reais – nunca se pesquisou tanto sobre solidão em meio a uma multidão de falas e ideias. Assim, a comunidade incel se manifesta com muitos memes e outros recursos, como emojis, para poder se relacionar."
Qual a diferença de incel e red pill?
"O red pill pode ser usado em contextos distintos, como uma comunidade incel. Ele provoca uma apologia errônea de que o passado seria melhor do que o presente, só porque é um presente diferente, incomparável a como nossos pais foram educados, o controle parental da época. Hoje o filho está no quarto ao lado, conectado e exposto aos diversos perigos da internet.
O termo red pill também é uma referência ao filme Matrix (1999). O personagem de Keanu Reeves escolhia entre duas pílulas: a azul, em que mantinha um estado de ignorância, ou de passividade perante a tudo que ele vivenciava; e a vermelha, o despertar para uma realidade que poderia não ser confortável, mas que esclarecia muita coisa. Essa pílula vermelha, é um símbolo forte para colocar o homem diante da sua condição atual.
Precisamos escutar esses jovens, dar um espaço de fala para eles explicarem quais têm sido suas angústias. Os pais precisam mudar suas formas de controle, olhar, dar limites, mas também saber escutá-los nesse novo cenário linguístico e emocional que eles se encontram. A gente só vai conseguir conduzir melhor nossos adolescentes se falarmos línguas parecidas e soubermos que eles estão no quarto ao lado."