Quem nunca ouviu falar que São Paulo tem a fama de ser a “terra da garoa”? Mas, por incrível que pareça, aquelas gotículas geladas de água no ar estão cada vez mais escassas. Pior que isso, ganharam mais volume e viraram tempestades, consequência das mudanças climáticas.
Estudos mostram que, ao longo dos anos, houve mais precipitação em São Paulo. Além disso, a maior cidade do país também recebeu mais chuvas extremas, inclusive no inverno, uma preocupação de décadas atrás. É o que diz uma pesquisa da professora Maria Assunção Faus da Silva Dias, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP).
Ação do homem e mudanças climáticas
Na apresentação do levantamento de Silva Dias ao Comitê de Mudança do Clima e Ecoeconomia do Município de São Paulo, em 2016, ela mostrou a evolução histórica da chuva na capital, com base no número de dias de precipitação por década, entre 40 mm, 60 mm e 80 mm.
Segundo a pesquisadora, entre os períodos de 1995-2004 e 2000-2009, houve alta no número de dias quanto às chuvas superiores a 60 mm e 80 mm, como expõe os gráficos (veja abaixo) elaborados pela professora da USP. O estudo destaca que as causas da maior incidência de chuvas extremas estão relacionadas com as mudanças climáticas, inclusive sob a perspectiva da ação do homem nesse processo.
Em paralelo às chuvas, São Paulo também sofre com o aumento das temperaturas, muito por causa da falta de planejamento urbano, poluição do ar, diminuição das áreas verdes e excesso de concreto. Todos esses fatores contribuem para a chamada “ilha de calor”, o que dificulta a chegada da garoa, mas favorece a formação de nuvens carregadas.
“Não há menor dúvida de que a antiga cidade da garoa, da década de 1950, desapareceu. Hoje, temos umidade relativa do ar muito menor e uma temperatura muito maior, tanto no período noturno como no período diurno, que desfavorece a formação da garoa. Por essa razão, São Paulo deixou de ser a cidade da garoa”, explicou o professor Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.
São Paulo mais quente e seca
Num período de 20 anos, entre 1991 e 2020, dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmam que São Paulo ficou mais quente, mais seca e teve madrugadas menos frias. As informações foram compiladas pelo site especializado Climatempo. Veja os gráficos abaixo!
“[Essas chuvas extremas] são reflexo da falta de redução da emissão de gases de efeito estufa. Particularmente, da queima de combustíveis fósseis. Então, nós estamos vendo chuvas mais intensas e mais frequentes do que tínhamos há 20, 30 anos”, ponderou Artaxo em entrevista ao Band.com.br.
3ª maior chuva em São Paulo
Na última sexta-feira (24), São Paulo sofreu com a terceira maior chuva em 64 anos. Ao todo, foram 125 mm de precipitação, enquanto a média para o mês é de 288 mm, segundo a Defesa Civil. A tempestade causou alagamentos, enxurradas, invadiu estações do Metrô e até faz uma vítima na capital, o artista plástico Rodolpho Tamanini Netto, de 73 anos.
Em declaração à imprensa, na segunda-feira (27), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) defendeu o plano contra alagamentos da gestão e disse que não pretende mudar as ações para prevenir a cidade dos efeitos das tempestades. Segundo o gestor, a chuva em questão "teria sido uma tragédia" se a prefeitura não tivesse feito obras de drenagem.