O que é a seita cristã Moon e por que o Japão quer dissolvê-la?

Acusada de manipular e extorquir milhões de fiéis, Igreja da Unificação pode estar com os dias contados. Pessoas que afirmam ter sido lesadas por práticas do grupo demandam mais de R$ 218 milhões em indenizações.

Por Deutsche Welle

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Uma controversa e poderosa igreja acusada de manipular e extorquir milhões em doações de fiéis no Japão pode estar com os dias contados. A seita Moon, denominação religiosa fundada na década de 1950 na Coreia do Sul e mundialmente famosa como Igreja da Unificação, foi condenada nesta terça-feira (25/3) por uma corte distrital de Tóquio à perda de seu status de entidade religiosa, privilégio que a isentou do pagamento de impostos por todos esses anos.

Só no Japão, foram movidos desde 2023 processos que somam mais de 5,7 bilhões de ienes em pedidos de indenização (cerca de R$ 218 milhões).

A seita cristã conservadora, que também é bem estabelecida nos Estados Unidos e tem uma filial em São Paulo, ganhou projeção global nas décadas de 1970 e 1980 e se notabilizou por organizar cerimônias coletivas de casamento que enchiam estádios inteiros.

De DNA ferrenhamente anticomunista, sua filosofia se baseia em interpretações do Antigo e do Novo Testamento, bem como no manuscrito O princípio divino, de autoria do pai da seita e autodenominado messias, reverendo Sun Myung Moon (1920-2012).

A igreja é considerada controversa por supostamente exigir doações exorbitantes de fiéis e pela prática de "vendas espirituais" – a venda de itens por preços elevadíssimos, supostamente pagos mediante coação e lavagem cerebral.

Especialistas apontam que o Japão tem um peso importante nas finanças da organização. Ali, os fiéis seriam doutrinados a pagar pelos erros cometidos por seus ancestrais durante a ocupação japonesa da Península Coreana (1910-1945).

A Igreja da Unificação alega ter 3 milhões de fiéis em todo mundo. Seu ramo japonês, fundado em 1959, é liderado hoje por Hak Ja Han, viúva do criador da seita, e reuniria 300 mil adeptos.

Após a morte de Moon em 2012, a igreja se fragmentou devido a disputas entre a viúva e vários dos 15 filhos do casal.

Como surgiu a Igreja da Unificação?

A Igreja da Unificação foi fundada em 1954, um ano depois da Guerra da Coreia (1950-1953), que dividiu a Península Coreana entre a Coreia do Norte, de regime totalitário, e a Coreia do Sul democrática. Seu criador, o reverendo Sun Myung Moon, era originalmente do norte e chegou a ficar quase três anos preso em um campo de trabalho forçado, durante o regime de Kim Il-sung, até ser libertado por tropas das Nações Unidas.

Defensor fervoroso da unificação da Península Coreana, Moon dizia ser um novo messias enviado por Jesus Cristo.

Ao longo de sua vida, ele trabalhou para projetar a igreja globalmente e expandir seus negócios e suas obras de caridade, levando-a para os EUA na década de 1970. Datam desta época as primeiras denúncias contra a entidade, acusada de usar táticas desonestas de recrutamento de fiéis e de promover lavagem cerebral para angariar recursos.

A igreja sempre negou qualquer má conduta. Em 1982, porém, Moon foi condenado nos EUA por evasão de divisas e cumpriu pena de prisão em Nova York.

Apesar disso, Moon logrou se aproximar de líderes conservadores nos EUA, como os presidentes Richard Nixon (1969-1974), Ronald Reagan (1981-1989) e George H.W. Bush (1989-1993). Também se aproximou de Donald Trump, embora o empresário só tenha ascendido à Casa Branca anos depois da morte de Moon, em 2017.

E apesar de anticomunista, Moon também teria mantido diálogos com seu algoz, Kim Il-sung, líder supremo da Coreia do Norte de 1948 a 1994 e avô de Kim Jong-un, ditador atualmente no poder.

Em 1994, com a dissolução da União Soviética, a igreja – originalmente fundada sob o nome "Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo" e então rebatizada de "Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial" – se reformulou, suavizou sua postura política e passou a centrar seus esforços na construção do diálogo pela paz mundial.

Um dos exemplos desses esforços é a Federação para a Paz Universal (UPF, na sigla em inglês), uma organização cujos fóruns já contaram, presencialmente ou por meio de mensagens de apoio, com a participação de políticos como Donald Trump, o português e ex-presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso (2004-2014) e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, assassinado em 2022.

Assassinato de premiê japonês impulsionou denúncias

Por décadas, denúncias contra a Igreja da Unificação no Japão não deram em nada. A seita tinha laços com o Partido Liberal Democrático do Japão, que governa o país praticamente ininterruptamente desde 1955.

Isso mudou em 2022 com o assassinato do premiê Abe. O homem acusado pelo crime, Tetsuya Yamagami, afirma que inicialmente planejava atacar a direção da Igreja da Unificação, mas que teria fracassado e por isso se voltou contra o político, por considerar que o avô de Abe, o também ex-premiê Nobusuke Kishi, contribuíra para a chegada e estabelecimento da seita no Japão.

Abe, um ultraconservador, prestigiava eventos organizados por representantes da igreja.

Em depoimentos, Yamagami justificou o atentado contra Abe alegando que a seita teria provocado a ruína financeira de sua família. A mãe dele teria doado cerca de 100 milhões de ienes (o equivalente a 1 milhão de dólares na época) ao grupo.

O tio de Yamagami também afirma ter recebido ligações do sobrinho pedindo ajuda quando a mãe o deixava só com os irmãos, sem comida, para ir frequentar a igreja.

O assassinato de Abe acabou levando a investigações sobre as práticas da igreja e suas conexões com a política do Japão – a seita foi acusada, entre outras coisas, de organizar campanhas de compra ou manipulação de votos.

O caso revoltou o Japão e minou a popularidade do então primeiro-ministro, Fumio Kishida, forçado a expurgar deputados e ministros suspeitos de manter vínculos com a organização.

Por que a Igreja da Unificação pode ser dissolvida

O Ministério da Educação do Japão pediu a dissolução da seita Moon a uma corte distrital de Tóquio em outubro de 2023, acusando-a de tentar manipular fieis e extorqui-los para além de suas capacidades financeiras, amedrontando-os e gerando prejuízos para eles e suas famílias.

A petição foi baseada em entrevistas com mais de 170 supostas vítimas das práticas abusivas da igreja. O sistema legal japonês permite a dissolução de uma organização religiosa em caso de danos substanciais ao bem-estar público.

A decisão proferida nesta terça-feira (25/3), que ainda pode ser revertida em instâncias superiores, acabaria com a isenção fiscal da igreja no Japão e a forçaria a liquidar seus bens, mas não impediria o grupo de seguir operando com outro tipo de entidade.

De acordo com a emissora japonesa NHK, a corte afirma que os problemas da igreja são extensos e contínuos, e a ordem de dissolução é necessária porque é improvável que a igreja mude por conta própria.

A filial japonesa da igreja nega até hoje o cometimento de qualquer irregularidade, e afirmou em nota que planeja recorrer à Suprema Corte do Japão. O grupo classifica o processo de séria ameaça à liberdade religiosa e aos direitos humanos de seus fiéis, e diz que a decisão judicial é "verdadeiramente lamentável" e "injusta", baseada em uma "interpretação errônea e absolutamente inaceitável da lei".

Advogados das supostas vítimas temem que um recurso acabe atrasando o cumprimento da decisão e dando tempo à seita para transferir seus recursos para o exterior, inviabilizando o pagamento de indenizações.

A Igreja da Unificação se tornou a terceira organização religiosa a ser alvo de uma ordem desse tipo no Japão. Os outros dois casos são o do culto Aum Shinrikyo (Verdade Suprema), responsável pelo ataque com gás sarin no metrô de Tóquio em 1995, e do templo budista Myokakuji, da seita Nichiren, cujo líder máximo foi condenado por fraude.

ra/md (AP, EFE, AFP)

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