
O governo de Benjamin Netanyahu demitiu um chefe de sua inteligência interna, o Shin Bet, Ronen Bar, pela primeira vez na história de Israel. A acusação pública contra ele foi a de “quebra de confiança”, mas a oposição sustenta que o motivo verdadeiro seja a investigação conhecida como Catargate, que desvendou um escândalo: o envio de dinheiro do Catar, um país “inimigo”, para o coração do poder israelense, o gabinete de Netanyahu, onde um porta-voz não contratado, sem credenciais, o recebia, e está preso.
Uma impressionante multidão esperou sob chuva forte a decisão do governo Netanyahu, sob o temor generalizado de que essa seria a última manifestação da democracia em Israel.
Um cenário previsto por israelenses na plataforma X: 1. cai o chefe do Shin Bet, o serviço secreto interno, Ronen Bar; 2. Depois, talvez no domingo, deverá ser demitida a procuradora-geral, Gali Baharav-Miara; 3. durante a semana, o Tribunal Superior invalidará as duas demissões, julgando-as fora da lei; e 4. Netanyahu não respeitará a Justiça; e Israel mergulhará em uma crise constitucional, a caminho de uma ditadura.
Pesquisas divulgadas nesta quinta-feira mostram que 51% dos israelenses são contra a demissão do chefe do Shin Bet, e 32%, favoráveis. Outro resultado: 46% confiam mais em Ronen Bar do que em Netanyahu.
O chefe do Shin Bet, Ronen Bar, não compareceu à reunião do governo por considerar que ela “foi convocada em contradição às leis de Israel e contra o parecer da procuradora-geral”. Ele enviou uma carta aos ministros refutando a justificativa para sua demissão, dada por Netanyahu: “quebra de confiança”. Ao contrário: ele listou as ações que ele e o Shin Bet empreenderam pela última libertação de reféns. E mais: “confiança pessoal” está, neste caso, em oposição ao interesse público”. Fica a questão: será que o próximo chefe da espionagem interna israelense obedecerá ao critério de lealdade ao primeiro-ministro?
Para Ronen Bar, o motivo real é o Catargate, a investigação sobre dinheiro do Catar que chegou ao gabinete do primeiro-ministro Netanyahu, através de um porta-voz do governo — o atual escândalo em Israel. Mas ele avança também outro motivo: a sua insistência por uma comissão de inquérito para apurar as falhas políticas no ataque do Hamas de 7 de outubro. Netanyahu não a quer, enquanto a guerra em Gaza continuar, e ele a reavivou agora, após um cessar-fogo de dois meses, sob críticas de que está promovendo uma batalha inútil para se salvar politicamente, e não aos 25 reféns vivos. O primeiro-ministro também responde a três processos por corrupção. Reiniciando a guerra, ele ganhou uma coligação mais robusta, com a volta do ministro ultranacionalista Itamar Ben-Gvir, que havia renunciado em protesto à trégua.
Ronen Bar acrescentou que concluir a investigação sobre o Catargate, que considera “complexa, extensa e altamente sensível (...) é um dever político da mais alta relevância”.
A carta foi considerada “sem precedentes” pelo líder de Os Democratas que está despontando como o mais forte candidato às próximas eleições, Yair Golan, empurrado até cair ao chão por policiais durante os protestos em Jerusalém. Ele reagiu: “Depois de 38 anos no Exército, não serão alguns empurrões que vão nos parar”. Os manifestantes passaram a tratar o primeiro-ministro o “Exterminador do Estado”.
O ex-presidente da Suprema Corte, Aharon Barak, disse que “derrubaria a decisão do governo de demitir Ronen Bar se estivesse na ativa, como juiz”. Ele explicou que o papel do chefe do Shin Bet não é ganhar a confiança do escalão político. Ele deve desempenhar seu papel como está explicitamente descrito na lei”. Em resumo: “Há autoridade para demitir, mas não há razão para demitir”. Ele também derrubaria a demissão da procuradora-geral Gali Baharav-Miara, muito antecipada por Netanyahu.
O presidente de Israel, Isaac Herzog, sem mencionar Netanyahu, condenou o governo pelas políticas “divisivas” e “unilaterais” que está tomando, ao mesmo tempo em que reinicia a guerra em Gaza. “É impossível renovar os combates para cumprir a ordem sagrada de resgatar os reféns e, ao mesmo tempo, não ouvir e apoiar as suas famílias que estão desesperadas, sofrendo o inferno na terra”.