
No país, a proteção à maternidade é um direito previsto tanto na Constituição Federal, quanto na CLT. Mesmo assim, as mulheres grávidas estão mais sujeitas a discriminações, violências e assédios no trabalho.
Foi o que a especialista em gerenciamento de riscos Viviane Elias Moreira passou quando ficou grávida. Ela conta que, na época, trabalhava em um cargo de coordenação e já convivia com acúmulo de função. “Desempenhei esse acúmulo nos nove meses de gestação e ainda dei apoio à minha equipe durante a licença-maternidade. Ao retornar, tive minha promoção cancelada”, conta.
Ela afirma que a empresa justificou a promoção caiu porque ela “teria mais tarefas a assumir”. “Falaram que minha prioridade seria a maternidade, não a minha carreira. A gestora da época, inclusive, recomendou meu desligamento, alegando baixa performance no período em que estive de licença-maternidade”, relata.
Situações como a de Viviane são comuns no Brasil. Em 2022, o IBGE identificou que 68% das mães relataram que perderam oportunidades de promoção depois da maternidade. Além disso, gestantes são três vezes mais propensas a serem demitidas no primeiro trimestre da gravidez, segundo o Ministério do Trabalho.
Após se tornar mãe e passar por situações discriminatórias no ambiente de trabalho, Viviane trocou de emprego e se deparou com outra realidade. “Minha liderança tinha um olhar diferente. Era um homem, mas que vivenciou com a esposa restrições do tipo e não replicou na liderança. Tive sorte também de ter uma rede de apoio em casa”, afirma.
Discriminação de mães e gestantes vai além da demissão
Mesmo com garantias de direitos, como a licença-maternidade de 120 dias, descansos ao longo da jornada para amamentação, dispensa para acompanhar o filho de até seis anos em consultas médicas e garantia de emprego do começo da gravidez até cinco meses após o parto, muitas mães sofrem com diversos tipos de discriminação.
Ana Cláudia Peixoto, gerente de Gente da Sólides, afirma que muitas vezes a intolerância com gestantes e mães é feita de forma sutil. “Ela pode ser excluída de processos seletivos por ser mãe ou estar grávida, não conseguir ajustes na jornada de trabalho e perder oportunidades por terem a percepção equivocada de ter menor comprometimento”, pontua.
Para Juliana Carneiro, head do Instituto Felicidade da Mulher, muitas vezes a empresa e a gestão entendam a maternidade como um “problema profissional”. “Gestantes e mães são frequentemente vistas como menos produtivas, então elas enfrentam esse tipo de dificuldade”, comenta.
Carneiro cita que as mães também sofrem com pressões para provar que são competentes, já que muitas vezes é esperado que elas compensem a licença-maternidade com maior dedicação após o retorno. “Além disso, comentários negativos sobre a gravidez, reações hostis ao uso do direito das pausas para amamentação e cobrança são vistas também”, afirma.
Conciliar vida de mãe e profissional também é desafio para mulheres
Com as mudanças intensas na vida da mulher ao ser mãe, vem também o desafio de conciliar o trabalho com a criação de um filho. Para se ter uma ideia, o IBGE aponta que mulheres dedicam ao cuidado doméstico o dobro do tempo dos homens. São 21,4 horas semanais, ante 11 horas.
Em meio a isso, a gestão no ambiente de trabalho pode aumentar esse desafio de conciliar as rotinas, principalmente pela falta de flexibilidade. Juliana cita que muitas podem se sentir penalizadas por precisarem sair no horário, ou por tentar ajustar as rotinas para continuar entregando as demandas no ambiente de trabalho.
“A fase é desafiadora, elas vivem mudanças internas e externas. Esse tipo de situação faz a mulher se sentir só, cansada e perdida, ainda lidando com instabilidade e insegurança no trabalho”, lamenta.
Ana Cláudia Peixoto, da Sólides, afirma que gestores de Recursos Humanos precisam combater esse tipo de discriminação. “É preciso flexibilizar a jornada de trabalho, seja com trabalho remoto ou híbrido, horários flexíveis e banco de horas para que as mães conciliem as responsabilidades, reduzindo a evasão do mercado de trabalho”, pontua.
Para ela, é importante que o RH sensibilize a liderança. “Para que os gestores entendam os desafios da maternidade e parentalidade no ambiente corporativo, fortalecendo a cultura e evitando esse tipo de discriminação”, diz.
Inclusão de mães não é obstáculo para produtividade
Com políticas fortes de inclusão de mães e gestantes, é possível manter o comprometimento e produtividade das funcionárias no ambiente de trabalho. É como avalia a especialista em liderança, Rosa Bernhoeft. “O RH finalmente está acordando para a realidade que é a maratona de ser mãe e manter uma carreira. As garantias de emprego e flexibilização de horários, por exemplo, reduzem a rotatividade de uma empresa em até 30%”, comenta, citando dados do Ministério do Trabalho de 2023.
Rosa pontua que programas de apoio no pós-maternidade também fazem a diferença. “Todo mundo ganha. As empresas são mais produtivas, o clima organizacional melhora e, claro, as crianças têm mães mais presentes e menos sobrecarregadas”, avalia.
Ana Cláudia Peixoto, da Sólides, afirma que o RH também deve ser atuante para conscientizar e treinar líderes sobre a importância das mães no trabalho. “É preciso ter normas bem definidas contra qualquer tipo de discriminação, canais para denúncias e processo estruturado para apuração de casos de assédio. Monitorar dados sobre retenção, promoções e salários também ajuda a identificar desigualdades”, diz.
Para a inclusão ser efetiva, Ana Cláudia cita que gestores podem começar dialogando com a equipe e compreendendo necessidades, além de entender que incluir mães é reter talentos e fortalecer a cultura da empresa. “O bom é sempre buscar soluções viáveis para a empresa. Além disso, promover uma cultura de apoio e pertencimento é essencial para que essas profissionais se sintam valorizadas e engajadas”, indica.
Sou mãe e me senti discriminada, o que fazer?
A discriminação pode ocorrer de diversas formas, ainda mais em um ambiente hierárquico como é o trabalho. Caso seja mãe ou gestante e tenha se sentido discriminada, o primeiro passo é reunir evidências que possam indicar a desigualdade.
Ana Cláudia Peixoto cita que é importante ter apoio dentro da empresa. “Seja por meio do RH, um canal de denúncias ou comitê de diversidade, caso exista. Se não resolver internamente, a profissional pode recorrer a órgãos como o Ministério Público do Trabalho ou sindicatos da categoria”, diz. Para ela, o essencial é que a empresa tenha um ambiente seguro para que essas questões sejam tratadas de forma justa e transparente.
Juliana Carneiro, do Instituto Felicidade da Mulher, afirma que é preciso estabelecer limites para defender o próprio bem-estar. “Deixe claro que ser mãe não diminui sua capacidade, seja firme e não se justifique demais, isso pode enfraquecer sua posição”, lista.
Ela afirma que criar uma rede de apoio no trabalho pode facilitar a se manter mais segura contra discriminações. “Tenha colegas para se apoiar e, se possível, dialogue com líderes que valorizam o equilíbrio entre vida pessoal e no trabalho”, diz.
Direitos das mães e gestantes ainda não são totalmente efetivos
O Brasil possui ampla legislação de proteção às gestantes e mães, mas, para especialistas, ainda há o que melhorar. Para Ana Cláudia Peixoto, existem desafios para garantir a equidade de gênero no mercado. “É preciso ampliar a oferta de políticas que garantam uma transição mais equilibrada do retorno ao trabalho após o fim da licença-maternidade”, cita.
Apesar da proteção legal das gestantes e mães, Ana Cláudia pontua que a aplicação das leis e criação de novas políticas ainda são desafios importantes. “Só assim podemos garantir que a maternidade não seja um obstáculo para o crescimento profissional das mulheres”, avalia.
Para Viviane Elias, que sofreu discriminação no ambiente de trabalho e trabalha com gestão, apesar das empresas mudarem o modo de combater desigualdades, ainda há o que melhorar. “É preciso investir em estruturas de compliance antidiscriminatório, canais de denúncia que realmente funcionem de forma imparcial e, mais do que isso, a implantação de processos mais éticos e justos para todas as mulheres nos ambientes corporativos”, afirma.