Copa do Mundo e guerra em Gaza se encontram no 'Catargate' em Israel

Nesta segunda-feira, Netanyahu prestou esclarecimento no processo; dois de seus assessores tiveram a detenção estendida

Benjamin Netanyahu
Reuters

Quem poderia imaginar que a defesa da Copa de 2022, no Catar, tenha sido elaborada no gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em Jerusalém? Só hoje as revelações estão aparecendo, num processo chamado Catargate.

Israel e o Catar são, tecnicamente, países inimigos. Mas, depois da invasão do Hamas em 7 de outubro de 2023, delegações israelenses vão à Doha negociar a libertação de reféns e o cessar-fogo em Gaza, com mais egípcios e americanos.

Nesta segunda-feira, Netanyahu prestou esclarecimento no processo do Catargate. Dois de seus assessores tiveram a detenção estendida por mais dois dias.

Antes de procurar quem poderia mudar a imagem do Catar para a Copa do Mundo, o líder catariano, Xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, já tinha ligações com israelenses. Ele mandava milhões de dólares de ajuda para Gaza, desviados para o Hamas. Era uma estratégia de Netanyahu: fortalecer o Hamas, que propagava a destruição de Israel, e desprezar a Autoridade Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, que concordava com uma solução de dois estados.

A campanha online secreta pró-Catar foi investigada a fundo pelo jornal israelense Haaretz. Dois assessores do gabinete do primeiro-ministro, Yonatan Urich e Srulik Einhorn, donos da empresa Perception, criaram vinte perfis falsos em redes sociais (avatares), websites e blogs, para combater o histórico catariano de infrator de direitos humanos (6.500 trabalhadores teriam morrido na construção dos estádios para Copa) e desestabilizador no Oriente Médio, além de protetor do grupo terrorista Hamas.

O objetivo, segundo o Haaretz, era “lavar a imagem do Qatar” e “mudar o discurso sobre o emirado. O nome do projeto: Lighthouse (Farol). A empresa israelense Koios, que se diz focada em prevenção de fraude e investigação financeira online, executou a campanha. O email de um homem ligado à inteligência militar israelense, Idan Shance, registrou o site de notícias falsas, Worldwide & Business News, que oferecia empregos a “trabalhadores de língua alemã”, pois a torcida na Alemanha era considerada um público-alvo.

À medida que o jornal Haaretz contatava empresas criadas para o Projeto Farol, elas simplesmente desapareciam. Yonatan Urich e Eli Feldstein foram detidos e interrogados pela polícia sob a suspeita de contato com um agente estrangeiro, fraude, lavagem de dinheiro e suborno. O pagamento do Catar para a campanha era transferido por um lobista do governo catariano para Israel. O primeiro-ministro Netanyahu foi informado de uma transferência de 4 milhões de dólares para o braço militar do Hamas. O dinheiro vivo, para evitar rastreamento, começou a entrar em Gaza desde 2018.

O Catar nega todas as informações reunidas por Israel. O primeiro-ministro Netanyahu desmente a sua participação, enquanto responde a três processos por corrupção na Corte de Tel Aviv. Ele disse ontem que seus dois assessores, Yonatan Urich e Eli Feldstein, que estão presos, “são reféns acusados num processo politicamente motivado”. Ele acrescentou que “a única razão das investigações é a de evitar a demissão do chefe do Shin Bet”, Ronen Bar, que foi suspensa pela Suprema Corte de Justiça. O substituto indicado anteontem, general Eli Sharvit, foi defenestrado ontem.

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