[Coluna] O combate ao racismo e o papel das mulheres negras

21 de março marca o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, em lembrança a massacre durante o Apartheid. É também uma oportunidade para lembrar o protagonismo das mulheres negras na luta contra o racismo.

Por Deutsche Welle

No dia 21 de março de 1960, cerca de 20 mil pessoas negras se encontraram no bairro de Sharpeville, em Joanesburgo, África do Sul, para realizar um protesto pacífico. A razão da manifestação era a Lei do Passe, que exigia que toda a população negra do país usasse um pequeno caderno no qual deveria estar escrito os locais onde elas poderiam ir.

É importante lembrar que no ano de 1960, a África do Sul vivia o Apartheid, um regime de segregação racial em vigor desde 1948. A resposta do governo veio na velocidade e violência da rajada de metralhadoras: 180 feridos e 69 pessoas mortas naquele que entrou para a história, como o Massacre de Sharpeville.

O massacre foi um ponto de inflexão na história, e a opinião pública, que até então parecia tímida nas suas críticas ao regime do Apartheid, começou a mudar sua opinião.

Nove anos depois, com a intensificação da luta negra na África e nas Américas, a ONU declarou que 21 de março seria o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Uma data que segue sendo celebrada.

Sem dúvidas que, de lá para cá, muita coisa mudou. Graças à luta histórica das populações negras, os regimes segregacionistas foram derrubados, dando lugar para a construção (continua e complexa) de sociedades mais democráticas, nas quais a população negra pudesse ter direitos básicos garantidos.

Um dos momentos mais emblemáticos foi a eleição de Nelson Mandela, o primeiro presidente democraticamente eleito por toda a população na África do Sul. Outra eleição igualmente importante foi a do presidente Barack Obama nos Estados Unidos. Entre finais do século 20 e começo do século 21, dois países que tiveram no passado regimes abertamente segregacionistas elegeram democraticamente dois presidentes negros.

E o Brasil?

Aqueles pouco afeito às discussões raciais, podem se perguntar: "E o que isso tem a ver com agente, aqui no Brasil?” e minha primeira resposta seria: absolutamente tudo.

Mas para ser um pouco mais didática, diria que é fundamental lembrar que as transformações citadas acima que não diziam respeito apenas à África do Sul e aos Estados Unidos, e nos obrigam a entender a luta negra de maneira transacional e articulada.

Outra parte da resposta seria lembra que o racismo é um monstro faminto e insaciável. E que por aqui, ele segue de boca escancarada.

Me detendo aos episódios funestos do mês de março, poderia citar, a título de exemplo, aa manhã de 16 de março de 2014, quando Cláudia Silva Ferreira, mulher negra casada, mãe de quatro filho e trabalhadora foi baleada e arrastada por um carro da polícia no Rio de Janeiro, num crime bárbaro, mas que não chocou o país na devida medida, afinal ela era apenas mais uma mulher negra trabalhadora que morria de forma violenta.

Quatro anos depois, na noite de 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco foi brutamente assassinada a mando de influentes políticos brasileiros. Crimes hediondos que se somam a tantas outras mortes violentas causadas pelo racismo brasileiro, muito parecido com aquele dos Estados Unidos de da África do Sul.

O papel das mulheres negras

Mas nesse 21 de março, em que seguimos – ainda bem – celebrando o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, considero fundamental lembrar como as mulheres negras brasileiras tiveram e seguem tendo protagonismo e liderança na luta contra o racismo. E ao contrário do que costumo fazer nessa coluna – que muitos já devem ter percebido, costuma fala sobre pessoas importantes, mas já falecidas -, quero falar de quem está aqui e agora na linha de frente do combate.

Cito aqui A campanha 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo, uma mobilização nacional que visa conscientizar a sociedade sobre o racismo estrutural e promover ações concretas para combatê-lo, coordenada por Luciene Lacerda.

Realizada anualmente no Brasil, a campanha ocorre entre o início de março e o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, em 21 de março, e envolve debates, eventos culturais, palestras e atividades educativas. Essa iniciativa busca articular diferentes setores da sociedade, incluindo instituições públicas, movimentos sociais e a academia, para fortalecer o compromisso com a igualdade racial. Além de denunciar as desigualdades raciais, a campanha valoriza a memória, a cultura e a resistência da população negra, incentivando políticas públicas e ações afirmativas que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

E a boa notícia é que essa campanha é um dos exemplos da luta das mulheres negras de hoje. Vale lembrar o Geledés – Instituto da Mulher Negra, fundado por Sueli Carneiro que trabalha com a defesa dos direitos das mulheres negras e o combate ao racismo estrutural. O Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) coordenado por Cida Bento que atua tua na promoção da equidade racial e de gênero no ambiente de trabalho. A Criola, coordenada por Lúcia Xavier, que atua no enfrentamento das desigualdades raciais e de gênero, promovendo ações de empoderamento para mulheres negras e populações periféricas.

Temos também a Anistia Internacional Brasil, sob a direção de Jurema Werneck, que atua contra denúncia de violações dos direitos humanos, com foco na violência policial contra a juventude negra e na luta por justiça racial. Temos o Odara Instituto da Mulher Negra em Salvador, o Bamidlê - Organização de Mulheres Negras na Paraíba, além Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) que reúne diversas lideranças femininas do movimento negro para fortalecer políticas de enfrentamento ao racismo e ao sexismo. Organizações, Institutos e coletivos liderados por mulheres negras que bem sabem o quão afiados são os dentes do racismo

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.

Autor: Ynaê Lopes dos Santos

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