
Os times estão cada vez mais dispostos a implementar um Fair Play Financeiro no Brasil. Eles não possuem um projeto pronto, mas especialistas acreditam que o Brasil não pode seguir modelos europeus. É necessário desenvolver um projeto próprio. O Band.com.br conversou com dirigentes e blocos de times para entender como seria esse modelo. E existe algo em comum: tudo indica que, quando houver um Fair Play Financeiro no Brasil, o foco será no pagamento de dívidas e no controle da inflação do mercado da bola.
Atualmente os times brasileiros das Séries A e B estão divididos em dois blocos: Libra e LFU (Liga Forte e União). E ambos comentam sobre o Fair Play Financeiro. Recentemente membros da LFU se reuniram com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e discutiram o assunto.
A Libra tem se aproximado da LFU e cogita uma unificação, para que todos times sejam protagonistas na organização do Campeonato Brasileiro. Ainda não há um prazo definido para isso acontecer, mas especulações apontam para 2027 como ano mais provável.
No Congresso Técnico do Campeonato Brasileiro, na semana passada, novamente o Fair Play Financeiro foi debatido. Os clubes entenderam que não era possível concretizar esse projeto agora, para 2025. Mas indicaram que a CNC (Comissão Nacional de Clubes) vai tratar do assunto durante o ano. CNC é um órgão criado pela CBF que tem 5 times representantes, tratados como relatores dos demais.
Cesar Grafietti, economista especialista no assunto, já apresentou modelos de Fair Play Financeiro para a CBF e explicou para o Band.com.br. É algo focado justamente no controle de dívidas. Mas por enquanto isso não foi levado adiante.
Foco nas dívidas
Cesar explica que o modelo dele iria beneficiar quem tem poucas dívidas e consegue controlá-las. Ele dá exemplos: “O Fortaleza deve pouco, então pode gastar 80% a 90% da receita, porque não precisa sobrar dinheiro para pagar dívida. Já o Corinthians tem que sobrar dinheiro pra pagar dívidas. Tem que combinar as duas coisas para garantir que as dívidas sejam pagas”.
Cristiano Dersch, presidente do Cuiabá, reclamou recentemente da falta de pagamentos de times grandes, inclusive o Corinthians. Ao Band.com.br, ele reforçou: "O Fair Play Financeiro é você gastar só o que você pode gastar. Se tem um orçamento, é isso que você tem que gastar. A CBF exige isso, mas não fiscaliza".
José Olavo Bisol, vice-presidente de futebol do Internacional, apresenta discurso semelhante: “É preciso discutir o Fair Play Financeiro para que não gere irresponsabilidade nas finanças, conectado ao faturamento do clube”.
Cesar Grafietti acrescenta que existe uma condição para o projeto funcionar: “Os clubes têm que olhar para isso como um sistema, não individualmente. Se um time passa a ter problemas, atrasar pagamentos, atrasar imposto, atrasa todo o sistema”.
Na Europa existem diferentes modelos de Fair Play Financeiro. Mas é fundamental fazer adaptações para o Brasil: “Os modelos europeus, como o da Uefa, foram desenvolvidos para realidades econômicas, tributárias e regulatórias distintas. A mera importação de um modelo não resolveria os problemas intrínsecos do futebol brasileiro”, analisa Douglas Teixeira de Melo, advogado e sócio do escritório Cavagni, Penner, Pimentel e Balaciano Advogados.
Douglas lista tudo que é importante adaptar para o Brasil: realidade econômica das equipes, controle financeiro, transparência, promoção de incentivos, tempo de adaptação, incentivo à profissionalização e particularidades regionais.
O momento do futebol brasileiro também é diferente: quando a Uefa implementou o Fair Play Financeiro, muitos times já tinham se tornado clubes-empresas, possuíam gestões profissionais e dirigentes maduros. Já o Brasil está passando por tudo ao mesmo tempo: está profissionalizando as gestões, ainda não tem liga única e só recentemente aprovou a lei das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) - ou seja, a transformação em clube-empresa.
Crescimento ou prejuízo para clubes emergentes?
A lei das SAFs é um ponto crítico: a criação de um Fair Play Financeiro poderia diminuir o investimento em clubes-empresas, já que os controles financeiros seriam mais rígidos. Mas todos clubes e grupos ouvidos dizem que essa não é a intenção. Um projeto brasileiro teria regras mais flexíveis.
Alguns times pequenos e médios estão apostando tudo na transformação em SAF para evoluir. Não é uma garantia de sucesso. Inclusive alguns já tiveram problemas. Mas é uma chance de se profissionalizar e atrair investimentos.
Porém, o advogado Douglas faz um alerta: “existe o risco de que o Fair Play Financeiro prejudique times médios e pequenos, especialmente se o modelo for mal implementado. Ao limitar o aumento de investimentos, o Fair Play Financeiro pode criar uma barreira que venha dificultar o alcance desses clubes a um nível de competitividade maior".
Por isso, membros da Libra e da LFU querem um período de transição para que todos clubes se adaptem ao Fair Play Financeiro sem qualquer prejuízo.
A LFU reúne mais membros com esse perfil de clube emergente - médios e pequenos que estão crescendo recentemente. Mas a Libra concorda em seguir a mesma ideia.
Em alguns modelos da Europa, os times não podem gastar muito mais do que a receita do ano anterior. Se isso acontecesse no Brasil, neste momento, impediria que muitos times em baixa pudessem sonhar com o crescimento. Recentemente, por exemplo, Portuguesa e Santa Cruz conseguiram promessas de investimentos muito maiores do que as receitas dos últimos anos. A intenção é que esses times não sejam atrapalhados pelo Fair Play Financeiro.
Cristiano, do Cuiabá, acredita que é possível fazer o Fair Play sem prejuízo para times menores: “Não acho que seja problema. Você pode gastar se o investidor comprovar a capacidade de poder pagar aquele dinheiro. Não é só o que eu recebo de patrocínio ou de sócio. Se tem um investidor que comprou e quer investir R$ 100 milhões, e estiver comprovado que pode, tudo bem”.
Foco no mercado inflacionado
Muitos dirigentes, especialmente da LFU, estão preocupados com uma “inflação” no mercado da bola. Os times grandes estão gastando cada vez mais, muitas vezes sem controle, o que prejudica outros times menores - eles não conseguem acompanhar esse patamar ou entram em mais dívidas, o que cria uma “bolha” perigosa. Se ela estourar, o futebol brasileiro será a vítima.
Fernando Lamounier, educador financeiro e diretor da Multimarcas Consórcios, concorda que há esse risco: “O aumento no custo do futebol no Brasil é impulsionado por uma combinação de fatores, como a alta competitividade do mercado global, a valorização dos jogadores brasileiros no cenário internacional e a entrada de novos atores financeiros, como as SAFs, que trazem mais dinheiro ao mercado. Isso gerou uma inflação nos salários, direitos de imagem e custos de transferência, especialmente para manter talentos no país”.
Fabio Pizzamiglio, presidente do Juventude, confirma esse cenário: “Não há como negar que o futebol está absolutamente inflacionado no Brasil. Não é à toa que tantos atletas com mercado aberto na Europa e no Oriente Médio têm vindo com naturalidade atuar no Brasil. Isso porque os salários se equiparam. Esta realidade é condizente com 10 ou 12 clubes no Brasil e, talvez, eles balizem o mercado. E como esta é uma realidade na qual nem todos os clubes estão inseridos, as dificuldades dos clubes médios e pequenos tornam-se ainda maiores pela disparidade de poder de investimento”.
Para minimizar esses efeitos, Fabio aposta no desenvolvimento das ligas e na busca por alternativas: “Os clubes passarão a receber cotas mais equilibradas entre si”
Fernando e dirigentes concordam que outra solução é melhorar o tratamento das categorias de base. Toninho Cecílio, diretor-executivo do Botafogo-SP, detalha: “Uma das alternativas é a antecipação na prospecção de talentos e na leitura dos aspectos que devem mudar o jogo nos próximos anos".
Fernando acrescenta: "Outro caminho é a diversificação de receitas, ampliando as fontes para além de patrocínios e TV, como exploração de direitos de imagem, programas de sócio-torcedor mais robustos, e até a utilização de novas tecnologias, como NFTs e streaming, para gerar engajamento e monetização. A colaboração entre clubes, ligas e federações para criar um ambiente financeiro mais estável e previsível também é fundamental".
Quando será possível implantar?
Os times preferem não fazer uma previsão. Existe a esperança da unificação das ligas até 2027. Mas é possível que o Fair Play Financeiro vire realidade mesmo sem isso acontecer. Uma coisa não depende da outra. Esse acordo pode acontecer mesmo se os times continuarem separados em Libra e LFU.
Para isso bastaria que o modelo seja desenvolvido com detalhes, levado à votação pela CNC e apresentado para a CBF. Os dirigentes entendem que, se isso acontecer, dificilmente a CBF vai se opor.